domingo, 19 de junho de 2016

O efeito “sombra” em nossas vidas…

Hoje, vamos falar sobre um dos conceitos que eu considero mais interessante da teoria junguiana que diz respeito à “sombra” que vive em cada um de nós.

Sim, eu disse “vive”, porque apesar de muitos acreditarem que podem simplesmente eliminar os aspectos negativos de sua personalidade ao rejeitá-los, eles continuam atuando como autônomos em nosso inconsciente.

A “sombra” representa de um modo geral a soma de todos os aspectos de nossa personalidade que são negados por nós e, justamente por isso, permanecem submersos em nosso inconsciente.

Conhecida como a parte mais obscura da nossa psique, a sombra acaba por acumular tudo aquilo que rejeitamos em nós, seja por padrões morais, sociais ou mesmo pela nossa autocrítica.

Porém, quando algo é rejeitado pela consciência, seja uma característica ou aspecto da personalidade, continua atuando e influenciando a forma como agimos e reagimos às situações e pessoas ao nosso redor.

Entre suas muitas manifestações, a projeção é um dos processos mais comuns de atuação de nossa sombra. Quando algo nos irrita ou incomoda profundamente, mesmo que racionalmente reconheçamos que nossa reação ou emoção é desproporcional ao fato, pode estar presente uma manifestação da sombra. Isso porque aquilo que é negado em nós, seja uma emoção, pensamento, sentimento, comportamento aparece aos nossos olhos como que amplificado no outro.

Sentimento de inveja, raiva, culpa ou mesmo outras características, quando consideradas como defeitos, negativas ou ruins são reprimidos, sendo lançados em nossa sombra.
Dessa forma, sentimentos de inveja, por exemplo, quando rejeitados por nossa consciência, podem ser projetados para fora de nós por nossa sombra, fazendo-nos sentir que é a outra pessoa que sente inveja de nós.

Como não mais reconhecemos esse sentimento como nosso, podemos começamos a agir com a outra pessoa como se ela fosse um “inimigo” ou um “invejoso” que quer destruir o que é nosso.

Por outro lado, nem tudo que está em nossa sombra é realmente negativo. Alguns aspectos de nossa personalidade podem ter sido considerados negativos por outras pessoas em algum momento de nossas vidas e devido a isso ser rejeitados pela nossa consciência.

Podemos pensar em uma criança que adorava brincar imitando uma cantora e se apresentar para sua família e amigos. Em sua imaginação, talvez utilizasse um cabo de vassoura como microfone e se enfeitava para as apresentações. Essa poderia ser a forma de se expressar e manifestar ao mundo sua alegria. Contudo, em algum momento, pode ter ouvido de alguém que isso não era algo bom e que ela não deveria ser tão “exibida” porque as pessoas não gostam de meninas assim.

A partir desse momento, aquilo que lhe dava tanto prazer, e a fazia sentir-se feliz, pode ter se transformado em algo ruim e negativo, sendo rejeitado e jogado no inconsciente, na sombra. Porém, com o passar dos anos, essa mesma pessoa se vê frente a uma situação em que precisa falar em público e sente uma grande angústia como se algo lhe “travasse” a sua expressão.

Por mais que ela se esforce, não consegue relaxar e expressar-se livremente. Apesar de não se lembrar mais da situação que viveu em sua infância, a mensagem ficou gravada em seu inconsciente, ou seja: “as pessoas não gostam de meninas assim”, essa frase poderia ser traduzida para a situação atual mais ou menos assim: “se eu me expressar, posso parecer exibida e as pessoas não vão gostar de mim.

Apesar da maioria das pessoas desconhecerem, é muito comum encontrarmos esse tipo de situação em uma psicoterapia. Não são poucos os casos em que é preciso “resgatar” aspectos da personalidade que foram negados e rejeitados, apesar de serem primordiais para um bom desempenho da pessoa na vida.

Às vezes, muitas qualidades e talentos incríveis podem estar como que “soterrados” em nossa sombra, sendo preciso um trabalho terapêutico para resgatar essas qualidades e/ou permitir que esses talentos se desenvolvam. Muitas vezes, pode ser necessário lançar um “novo olhar” mais humano e compreensivo para que seja possível trazer para a consciência a nossa sombra, de forma a integrar partes importantes para o nosso desenvolvimento e equilíbrio interior.
Como acreditava Jung:
“Todo homem tem uma sombra e quanto menos ela se incorporar à sua vida consciente, mais escura e densa ela será. De todo modo, ela forma uma trava inconsciente que frustra nossas melhores intenções”.

Existem muitas formas de buscarmos essa incorporação, entre elas, a terapia com mandalas possibilita o acesso a conteúdos inconscientes de forma a integrar partes da psique que antes estavam esquecidas ou em conflito em nosso inconsciente.

Jung foi um dos pioneiros a divulgar a terapia com mandalas no mundo ocidental. Utilizava desenhos com mandalas para representar os seus sonhos e os sonhos de seus pacientes como parte do processo terapêutico. Com o tempo, percebeu que a técnica possibilitava o acesso aos conteúdos inconscientes,de forma a solucionar os conflitos existentes e propiciar uma maior integração entre partes da personalidade.

Apesar de ser utilizada por muitas pessoas para meditação, o simples ato de desenhar ou pintar mandalas podem representar um caminho para o autoconhecimento e equilíbrio psíquico. Também podemos criar mandalas pessoais e utilizá-las para obter um maior conhecimento sobre nós. Pois quando criamos uma mandala pessoal é como se retratássemos nosso mundo interior no atual momento de nossas vidas. Por isso, podemos dizer que as mandalas representam uma porta que nos leva ao nosso inconsciente possibilitando resgatar e integrar nossa personalidade.

Virgínia Fernandes

Carl Gustav Jung foi o precursor da psicologia analítica e nos deixou um grande legado possibilitando uma maior compreensão sobre os aspectos e mecanismos psíquicos do ser humano.

Fonte: https://osegredo.com.br/2013/11/o-efeito-sombra-em-nossas-vidas/